Uma ponte de Eça a Lars Von Trier. O realismo

 

Queríamos antes de tudo revelar que talvez seja uma ousadia comparar um movimento como o Dogma 95 a outro, que se deu  um século antes e num sector distinto. Não podendo ignorar, no entanto, as comemoração ao admirável Eça de Queirós, e reconhecendo pontos similares numa possível atitude de fundo nos criadores do Dogma e numa intitulada Geração de Setenta arriscaremos a esta comparação e explicaremos o porquê.

Ao longo da história das ideias é inevitável deixar-mo- nos envolver pelo confronto de duas posições distintas e apaixonantes, a que tradicionalmente sempre se chamou de idealismo e realismo. Motivadoras de convicções muito fortes, ambas se têm alastrado e conseguido penetrar todo um cenário de diferentes modalidades do encontro do homem com o mundo. Modalidades  que, quer pela expressão do pensamento, quer pela expressão artística, jogam precisamente pelos meios e intermeios  de uma tessitura ou mais idealista ou mais realista. Não querendo absolutizar, no entanto, o que nos parece é que na história da criação humana, no espírito de certas épocas, notamos , de diversas formas, uma saturação destas duas posições extremas, e quase como um contra peso, uma nova posição que tal saturação amadurece. É aqui, num destes momentos que Eça aparece. Cansado dos abusos do romantismo, forma literária idealista por excelência, levado à sua expressão ultra em 1865 por Bulhão Pato e Feliciano Castilho, revolta-se contra esta forma artística que considera " negação da arte pela arte ", " proscrição do convencional, do enfático e do piegas." Impõe-se pela " abolição da retórica considerada como arte  de promover a comoção usando da inchação do período, da epilepsia da palavra." Empunhando o pilão do realismo Eça  prepara-se para esmagar a decadência romântica que pela apoteose do sentimento descura a realidade , a necessária crítica social, a necessária denuncia dos vícios e a necessária correcção da humanidade visando levá-la para um caminho melhor. Para isso a literatura devia fazer um pacto com a ciência, com o objectivo, com o real e a obra nascer nutrida dos elementos essenciais do mundo humano, como um espelho. Ora esta urgência de reclamar a realidade no seio da literatura levou Eça e os seus amigos a deixar à história as famosas Conferências do Casino. Conferências, que de tão promissoras acabaram por ser condenadas à proibição,  procuravam estabelecer novas regras para uma literatura revolucionária e inovadora, entre outros projectos declaradamente de índole política e social. Assim em Portugal  através da Geração de Setenta chegaram os ecos do que também na Europa se fazia sentir através da escrita de  Zola por exemplo. Aproximadamente um século mais tarde o que Lars Von Trier nos vem dar testemunho é de uma mesma necessidade de realidade. O cinema está saturado dos efeitos alienadores que, quer pelos argumentos quer pelas técnicas utilizadas, reduzem a realidade a uma visão unívoca e balofa. Através de um conjunto de regras a que Lars se propôs a utilizar, o cinema  deveria deixar passar para fora, não uma possibilidade fictícia da realidade, mas a verdadeira forma como a realidade se dá ,aqui e agora, e explorando campos que a abordagem cinematográfica sempre negou, temos o exemplo de Os Idiotas. É assim que o dogma 95 pretende funcionar. Estipulando dez normas para a realização, este dogma, vem ao encontro das tais necessidades de realismo que anteriormente referimos em relação ao Eça. Regras que impedem a utilização de adereços manipulados para cenas especificas, o recurso a ambientes sonoros criados e artificiais, efeitos de luzes que modifiquem a apreensão da cena como esta se está a dar. Ou seja, o que Trier pretende é retirar da sétima arte uma manipulação do real que acaba por senão iludir, desfocar  a realidade. A pergunta que nos ocorre perante e apenas estas duas posições, se bem que há inúmeras ao longo dos tempos, é  o porquê  desta necessidade da arte se reformular a si mesma? De onde vem a vontade de representação das entranhas do mundo tal como ele é? Poderíamos nós interpretar o facto de por várias vezes , ao longo da história, haver movimentos que tentam resgatar a arte de um autismo imagético e de a repor no fulcro tensivo da consciência do homem, no mais vil, nas no mais verdadeiro que  se dá? Que sonho é este que sonha, não o sonho dos homens, que sonha o belo, o perfeito e o divino, mas o sonho talvez divino tão cheio destas lacunas do mundo? É aqui que Eça e Lars parecem sonhar em conjunto e talvez por isso nos tenham feito pensar...  

 

   Helena Nogueira

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